Da reunião inócua com a comissão do Tribunal de Justiça, mas não sem relevância, ao uso coercitivo de poder no momento seguinte. A semelhança a uma narrativa ficcional não é mera escolha para uma abertura de texto, pois ela mais que aproxima o relato aos fatos que aconteceram nesta quarta-feira, 7, durante assembleia dos servidores.
Após a votação da categoria pela continuidade da greve, funcionários do judiciário paulista, em mais uma tentativa de elevar a voz e sensibilizar tanto a população quanto aqueles que regem o terceiro Poder governamental, decidiram realizar mais um ato de manifestação sobre as condições que a nossa classe exerce seu trabalho: falta de infraestrutura, funcionários e salários defasados e sem reajustes a mais de dois anos.
Em seguida a votação, os servidores “abraçaram” o fórum João Mendes, em ato pacífico de simbolismo à luta que travamos continuamente. Homens da Força Tática e da Tropa de Choque da Polícia Militar afastaram os grevistas do prédio utilizando grades. Como se não bastasse, os integrantes das forças especiais lançaram gás de pimenta, bombas de efeito moral, de gás lacrimogênio, e atiraram nos servidores com balas de borracha, elevando o número de feridos para mais de 14.
Um associado da Associação Paulista dos Técnicos Judiciários (Apatej), de Carapicuíba, foi gravemente ferido e após socorro tardio foi preencher Boletim de Ocorrência (B.O.) na 1º DP de São Paulo. Além dele, pessoas não associadas a greve também foram atingidas com o gás das bombas de efeito moral, quatro, que paralisou, inclusive, motoristas que dirigiam nas ruas no entorno da praça. Outro associado da Apatej, Alberto Chavez, que gravou vídeo no qual pode ser conferida a agressão, desabafou sobre a agressão: “Nunca vi coisa igual. Fiquei apavorado e, pior, agiram de tal maneira que me fizeram sentir como um bandido e não como alguém que luta por um direito negado”, disse.
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Fora as vítimas já relatadas, a PM disse que dois policiais foram feridos, sem que houvesse nenhuma confirmação do fato, mesmo com apuração de jornalistas. Dirigentes das entidades representativas também tiveram que ser socorridos. A presidente da Associação dos Oficiais de Justiça do Estado de São Paulo (Aojesp), Yvone Barreiros Moreira, foi atingida com estilhaços das bombas de efeito moral e pisoteada, quando o medo atingiu seu nível mais agudo. O vice-presidente da Apatej, José Augusto Rosa, foi agredido com gás lacrimogêneo e teve que ser socorrido por companheiros. José Augusto, como é conhecido, tem problemas de respiração e quase teve sua glote fechada.
A represália aos manifestantes apresentou outra “face” da violência. Segundo servidores que buscavam atendimentos para os feridos, houve negligência de socorro. A equipe de paramédicos da OAB, que tem base no prédio, se recusou a receber as vítimas e teve sua ambulância retirada estrategicamente do local.
A cena de manifestação pacífica na tarde desta quarta-feira encerrou-se com imagens dignas da sétima arte, quando a mesma imita o cotidiano e este novo quadro ultrapassa nossa percepção de realidade.
Os capítulos de nossa luta não se encerraram tampouco serão cobertos por textos que não representem a nossa voz. A greve continua e mostraremos, como cidadãos e servidores do judiciário, que Leis existem para serem cumpridas, não para alimentar enredos.