
Ações ajuizadas pelo departamento jurídico da Apatej em benefício dos sócios
Veja quais são as ações ajuizadas pelo jurídico da Apatej
02/06/2026

Por Ednaldo Batista*
Existe uma história que se repete sempre.
Ela começa quando alguém, movido pelo sonho da estabilidade, da realização profissional ou da vocação para o serviço público, decide prestar concurso para Escrevente Técnico Judiciário.
Naquele momento, o cargo parece representar uma oportunidade. E de fato representa.
Mas o que os editais não contam é que, por trás do nome do cargo, existe uma realidade muito mais complexa, desafiadora e humana do que qualquer apostila é capaz de ensinar.
O novo escrevente chega ao Fórum carregando expectativas. Traz consigo a vontade de aprender, de crescer e de contribuir para a sociedade. Aos poucos, porém, vai conhecendo a verdadeira face da estrutura que sustenta o maior Tribunal de Justiça do mundo em numero de processos.
Descobre que muitos prédios convivem há décadas com problemas estruturais. Encontra móveis desgastados pelo tempo, instalações que necessitam de modernização, dificuldades de acessibilidade e ambientes que nem sempre refletem a grandeza da missão exercida em seu interior.
Descobre também algo ainda mais desafiador: o grande volume de trabalho.
Pilhas e mais pilhas de processos, hoje digitais, mas nem por isso menos complexos. Prazos que não esperam. Metas que não diminuem. Cobranças constantes. E uma realidade conhecida por todos, que é a insuficiência de servidores para atender uma demanda que cresce a cada ano.
É nesse momento que muitos compreendem que ser escrevente não é apenas ocupar um cargo.
É assumir uma responsabilidade.
Porque atrás de cada processo existe uma pessoa.
Existe uma família aguardando uma decisão.
Existe um trabalhador buscando um direito.
Existe uma criança esperando proteção.
Existe uma empresa lutando para sobreviver.
Existe alguém depositando na Justiça a esperança de encontrar uma solução para o seu problema.
E é justamente nesse instante que o escrevente deixa de ser apenas um servidor e se transforma em uma das engrenagens mais importantes do sistema de Justiça.
Sem ele, o processo não anda.
Sem ele, os prazos não são cumpridos.
Sem ele, audiências não são organizadas.
Sem ele, mandados não são expedidos.
Sem ele, os autos não chegam prontos para apreciação do magistrado.
O escrevente é o elo silencioso que conecta o cidadão ao Poder Judiciário.
É o verdadeiro motor que movimenta a Justiça diariamente.
Ao longo dos anos, entretanto, muitas transformações aconteceram.
A tecnologia chegou aos cartórios.
Processos físicos deram lugar aos eletrônicos.
Sistemas foram implantados.
Ferramentas digitais passaram a fazer parte da rotina.
Se por um lado essas inovações facilitaram inúmeras atividades, por outro exigiram dos servidores algo que raramente é reconhecido na mesma proporção, a constante qualificação.
O escrevente moderno precisou aprender novas tecnologias, adaptar-se a novas formas de trabalho e desenvolver conhecimentos cada vez mais especializados.
Muitos investiram em graduação, pós-graduação, especializações e cursos de aperfeiçoamento.
Estudaram à noite.
Abriram mão de finais de semana.
Conciliaram família, trabalho e formação acadêmica.
Tudo isso para acompanhar a evolução das exigências da função.
E mesmo diante desse esforço, ainda convivem com uma realidade que há muito tempo precisa ser enfrentada: a ausência de um plano de cargos e carreiras moderno, capaz de reconhecer adequadamente a evolução profissional dos servidores e oferecer perspectivas concretas de crescimento.
Da mesma forma, a defasagem salarial acumulada ao longo dos anos tornou-se uma preocupação permanente, especialmente para aqueles que dedicaram décadas de suas vidas ao Tribunal e que hoje veem seu poder de compra diminuir progressivamente.
Os desafios não pararam por aí.
O trabalho remoto trouxe ganhos importantes.
Reduziu deslocamentos.
Melhorou a qualidade de vida em diversos aspectos.
Ofereceu novas possibilidades.
Mas também produziu mudanças profundas na forma como os servidores se relacionam.
O cartório atravessou as portas do Fórum e entrou dentro das casas.
O ambiente profissional passou a dividir espaço com a vida familiar.
E, aos poucos, algo que sempre caracterizou o serviço público começou a se enfraquecer: a convivência humana.
As conversas de corredor diminuíram.
As amizades se tornaram mais distantes.
O compartilhamento de experiências tornou-se menos frequente.
Hoje, talvez um dos maiores desafios seja justamente reconstruir os laços que sempre fizeram da categoria uma verdadeira comunidade.
Apesar de tudo isso, existe algo que permanece intacto.
A dedicação.
A responsabilidade.
O compromisso.
A capacidade de seguir em frente mesmo quando faltam reconhecimento, estrutura e valorização.
Talvez seja justamente essa a maior característica do escrevente técnico judiciário.
A resiliência.
A capacidade de continuar acreditando na importância do seu trabalho.
A capacidade de compreender que sua função vai muito além de números, metas e relatórios.
Porque, no final de cada expediente, muito mais do que movimentar processos, o escrevente movimenta vidas.
E é por isso que este dia não deve ser apenas uma homenagem.
Deve ser também um momento de reflexão.
Reflexão sobre o presente que vivemos.
Sobre os desafios que enfrentamos.
E, principalmente, sobre o futuro que desejamos construir.
Um futuro com mais valorização.
Com melhores condições de trabalho.
Com reconhecimento profissional compatível com a relevância do cargo.
Com a implementação do nível superior para os escreventes.
Com uma carreira estruturada e atrativa.
Com remuneração justa.
Com respeito à experiência daqueles que dedicaram uma vida inteira ao Tribunal.
O Dia do Escrevente não é apenas a celebração de uma profissão.
É a celebração de homens e mulheres que, muitas vezes longe dos holofotes, sustentam diariamente uma das mais importantes instituições da democracia.
A todos os escreventes técnicos judiciários, da ativa e aposentados, nossa admiração, nosso respeito e nossa gratidão.
Que nunca lhes falte a esperança de dias melhores.
Porque quem dedica a vida a fazer a Justiça acontecer também merece justiça em sua própria trajetória.
*Ednaldo Batista é servidor do TJ-SP lotado no Fórum de Barueri e presidente da Apatej

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